A discussão sobre o papel da imprensa na vitalização do turismo, especialmente em regiões de imenso potencial como o Amapá, ecoou em recente sessão especial. Longe de ser um mero detalhe, a atuação midiática é, ou deveria ser, um pilar fundamental para a divulgação, consolidação e, por conseguinte, o desenvolvimento econômico de localidades que ostentam belezas naturais e culturais únicas. No entanto, a prática nem sempre acompanha a teoria, e o cenário amapaense não foge à regra, exigindo uma análise crítica e aprofundada.
Por trinta anos, tenho acompanhado de perto a dinâmica política e social do Amapá e seus municípios. Nesse percurso, observei como a narrativa construída pela imprensa pode influenciar diretamente a percepção pública e, consequentemente, o fluxo turístico. Uma cobertura positiva e bem estruturada pode atrair olhares de investidores e visitantes, enquanto a ausência ou uma abordagem superficial podem relegar destinos promissores ao esquecimento. Em Macapá (AP), por exemplo, o potencial turístico é inegável, com o Parque Igarapés do Jari, a Fortaleza de São José e a orla do Rio Amazonas oferecendo experiências singulares. Contudo, a visibilidade desses atrativos muitas vezes depende da capacidade dos veículos de comunicação em ir além do noticiário político corriqueiro.
A questão central que se apresenta é: a imprensa local e regional tem desempenhado seu papel de forma eficaz na promoção turística? A resposta, lamentavelmente, é complexa e multifacetada. Em muitos casos, a cobertura se concentra em eventos pontuais, sem um esforço contínuo de contextualização e aprofundamento. A falta de recursos, a pressão por audiência em detrimento da qualidade e a própria dificuldade em acessar e traduzir a riqueza cultural e natural em pautas atrativas são barreiras significativas. A sessão especial, ao destacar a importância da imprensa, acende um holofote sobre essa necessidade, mas a ação efetiva ainda é um desafio.
É preciso reconhecer que a imprensa, em sua essência, deve ser um agente de transformação. No turismo, isso se traduz em reportagens investigativas sobre a preservação ambiental, documentários sobre as tradições locais, guias de viagem que explorem a gastronomia e a hospitalidade amapaense, e a divulgação de infraestruturas e serviços que garantam uma experiência positiva ao visitante. A falta dessa proatividade pode deixar lacunas enormes, que são preenchidas por informações fragmentadas ou, pior, pela ausência de informação qualificada.
A reflexão que proponho é que, embora a sessão especial tenha sido um passo importante, ela precisa ser o ponto de partida para ações concretas. Precisamos de parcerias entre o poder público, o setor privado de turismo e os veículos de comunicação para criar estratégias de divulgação integradas. Isso pode envolver a formação de jornalistas especializados em turismo, o financiamento de projetos de reportagens especiais e a criação de plataformas digitais que centralizem informações relevantes. Sem um esforço conjunto e contínuo, a imprensa corre o risco de ser apenas uma espectadora do potencial turístico amapaense, em vez de uma protagonista em seu desenvolvimento.
É fundamental que os gestores públicos entendam que investir na divulgação turística, utilizando a imprensa como ferramenta estratégica, não é um gasto, mas um investimento com alto potencial de retorno. Da mesma forma, os empresários do setor precisam estar abertos a colaborar e a fornecer o suporte necessário para que as pautas turísticas ganhem o destaque merecido. A população, por sua vez, tem o papel de valorizar e divulgar suas próprias riquezas, criando um ciclo virtuoso de promoção.
A minha experiência de três décadas no cenário político do Amapá me ensinou que as grandes transformações raramente acontecem por acaso. Elas são fruto de planejamento, articulação e, acima de tudo, da capacidade de comunicar e engajar. A imprensa tem um poder imenso nesse processo. A pergunta que fica é: estamos, de fato, utilizando esse poder em sua plenitude para impulsionar o turismo no Amapá? A resposta, a ser construída coletivamente, definirá o futuro de muitos destinos promissores.
