A formalização no mercado de trabalho entre os jovens brasileiros, especialmente na vasta região amazônica, é um cenário marcado por profundas desigualdades. Uma pesquisa recente, denominada “Juventudes e o Mundo do Trabalho”, realizada pela Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva, lança luz sobre essa realidade preocupante.
O estudo, que ouviu 1.816 jovens de todo o país entre 11 e 23 de maio deste ano, revela que, embora 70% dos jovens declarem estar trabalhando, apenas 44% possuem carteira assinada. Um percentual significativo de 15% atua como assalariado sem registro formal, 13% são autônomos e freelancers, 10% desempenham trabalhos informais e 8% estão em programas de estágio e aprendizagem remunerados.
Na Amazônia Legal, que abrange nove estados e concentra uma população jovem expressiva, essas disparidades tendem a ser ainda mais acentuadas. Dados da pesquisa indicam que a formalização é consideravelmente menor nas regiões Norte (29%) e Nordeste (20%) em comparação com o Sul (58%) e o Sudeste (55%). Essa diferença regional reflete as distintas oportunidades de desenvolvimento econômico e a infraestrutura de mercado de trabalho entre as diversas partes do Brasil.
As desigualdades também se manifestam em recortes sociais e raciais. Jovens das classes A/B representam 43% dos trabalhadores formais, enquanto nas classes D/E esse número cai para 35%. Por outro lado, 21% dos jovens das classes D/E trabalham sem registro, um índice que se reduz para 13% nas classes A/B. No aspecto racial, 49% dos jovens brancos possuem emprego formal, contra 41% de jovens negros. Ademais, a informalidade e os “bicos” afetam 12% dos jovens negros, ante 5% dos brancos.
A escolaridade também é um fator determinante. Jovens com ensino fundamental incompleto têm maior probabilidade de recorrer a trabalhos informais (34%), enquanto apenas 3% dos que possuem ensino superior se encontram nessa situação. Essa correlação sublinha a importância do acesso à educação de qualidade como um trampolim para empregos mais estáveis e formais, um desafio persistente em muitas comunidades amazônicas.
A pesquisa aponta ainda que 20% dos jovens de 16 a 29 anos estão atualmente em busca de trabalho, com 29% tendo procurado nos últimos seis meses e 61% buscando uma nova colocação no último ano. Essa busca é frequentemente dificultada pela falta de experiência, citada por 49% dos entrevistados como o principal obstáculo, seguida pela alta concorrência por vagas (39%).
Um dado relevante é a percepção generalizada de que indicações e contatos são cruciais para a inserção no mercado de trabalho. Para 96% dos jovens, conhecer alguém em uma empresa ou receber uma indicação de familiares e amigos facilita a conquista de um emprego. Essa percepção é corroborada pelo fato de que 77% dos entrevistados conseguiram sua posição atual por meio de indicação, índice que sobe para 81% entre os mais velhos (25 a 29 anos).
A influência das indicações varia conforme a classe social, sendo considerada decisiva por 32% dos jovens da classe A/B, em contraste com 16% dos da classe D/E. Na região amazônica, onde as redes de contato podem ser ainda mais determinantes devido à menor oferta de vagas formais e à concentração de oportunidades em poucos centros urbanos como Manaus (AM) e Belém (PA), essa dinâmica pode ser ainda mais acentuada.
O estudo também aborda os planos futuros dos jovens. Cerca de 30% deles almejam um emprego com carteira assinada, demonstrando a valorização da segurança e dos direitos trabalhistas oferecidos pela formalização. No entanto, a realidade apresentada pela pesquisa sugere que o caminho para alcançar essa meta é repleto de obstáculos, especialmente para aqueles que residem em regiões com menor desenvolvimento econômico e social, como grande parte da Amazônia Legal.
