Na vastidão verdejante da Amazônia Legal, onde os rios serpenteiam como veias ancestrais e a floresta pulsa com vida, uma sombra de ilegalidade tem se estendido sobre a Terra Indígena (TI) Pequizal do Naruvôtu. Uma investigação minuciosa conduzida pelo Greenpeace revela um esquema preocupante que batizou de “lavagem de gado”, onde animais criados em terras invadidas e desmatadas acabam, por vias tortas, abastecendo grandes frigoríficos, como os da JBS, com destino a mercados internacionais e domésticos.
A prática, descrita pela ONG, consiste em transferir o gado criado em áreas de ocupação ilícita, onde o desmatamento avança impune, para fazendas regulares. Nessas novas propriedades, os animais são “limpos” de seu rastro de destruição, ocultando a origem irregular e permitindo que cheguem aos frigoríficos sem levantar suspeitas. O Greenpeace alerta que, sem um controle rigoroso de toda a cadeia produtiva, a carne originada de irregularidades acaba por “contaminar” o sistema, misturando-se à carne produzida de forma legal.
A TI Pequizal do Naruvôtu, homologada em 2016 no Mato Grosso, tem sido alvo de invasões e atividades agropecuárias, expressamente proibidas pela Constituição Federal. Apesar de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmarem a validade de sua demarcação, a pressão de pecuaristas e ocupantes ilegais persiste, gerando um ciclo de desmatamento e conflito.
Cristiane Mazzetti, coordenadora da Frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, ressalta a urgência de ações concretas: “O Brasil precisa demarcar e proteger as Terras Indígenas, regular o setor agropecuário, fomentar a rastreabilidade das cadeias produtivas e responsabilizar empresas com ligações com o desmatamento”. A proximidade da COP30, que ocorrerá em Belém (PA), intensifica o debate sobre a necessidade de regulamentações mais eficazes para garantir a sustentabilidade e coibir crimes ambientais no setor.
O relatório do Greenpeace aponta um caso emblemático: Mauro Fernando Schaedler, proprietário da fazenda Três Coqueiros II, localizada dentro da TI. Sua propriedade foi embargada pelo IBAMA por atividade irregular, mas, segundo a ONG, continuou a produzir e a transferir gado. Estima-se que as propriedades de Schaedler acumulem mais de R$ 3,1 milhões em multas ambientais. A investigação sugere que a Três Coqueiros II abasteceu frigoríficos da JBS sem os devidos protocolos de monitoramento capazes de identificar as irregularidades, com a transferência de 1.238 bois entre janeiro de 2018 e janeiro de 2025.
Esta prática, que se alastra como uma mancha sobre a integridade ambiental e os direitos dos povos originários, exige uma resposta firme e coordenada. A responsabilização das empresas e a garantia de que a carne que chega às nossas mesas não carrega consigo o peso do desmatamento e da invasão de terras indígenas são passos essenciais para a construção de um futuro mais justo e sustentável para a Amazônia e para o planeta.
