A falta de conhecimento sobre os países que compartilham o idioma português com o Brasil é alarmante e revela uma desconexão cultural e educacional significativa. Um estudo recente, o Barômetro da Lusofonia, aponta que uma parcela considerável da população brasileira desconhece a existência e a localização de nações onde o português é a língua oficial. Este cenário, embora possa parecer um dado isolado, carrega implicações profundas para a região amazônica e suas populações, estreitando laços com o continente africano e a própria identidade nacional.
A pesquisa, cujos detalhes ainda estão sendo amplamente divulgados, indica que muitos brasileiros associam o português exclusivamente ao Brasil, ignorando a riqueza e a diversidade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que inclui nações como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Portugal. Essa ignorância não é meramente uma curiosidade acadêmica; ela reflete um viés de percepção que muitas vezes centraliza o conhecimento e a cultura no eixo Rio-São Paulo, negligenciando as conexões transatlânticas e intercontinentais que o Brasil, especialmente a Amazônia, poderia e deveria fomentar.
Para a Amazônia Legal, a CPLP representa um leque de oportunidades estratégicas. Países como Angola e Moçambique, por exemplo, possuem economias em desenvolvimento e recursos naturais abundantes, além de desafios sociais e ambientais que guardam semelhanças com os enfrentados por estados como Pará (PA), Amazonas (AM) e Amapá (AP). A proximidade linguística e cultural deveria ser um facilitador para o intercâmbio de conhecimento em áreas como desenvolvimento sustentável, gestão de recursos hídricos, bioeconomia e políticas públicas voltadas para populações tradicionais e indígenas. No entanto, a falta de conhecimento básico sobre a Lusofonia dificulta a formação dessas pontes.
Imagine o potencial de colaboração em pesquisa e desenvolvimento para a bioeconomia amazônica com universidades e centros de pesquisa em Maputo (Moçambique) ou Luanda (Angola). Os desafios na conservação florestal, no combate ao desmatamento e na promoção de cadeias produtivas sustentáveis poderiam ser enfrentados de forma conjunta, compartilhando experiências e soluções. Contudo, a ausência de uma percepção clara sobre a Lusofonia limita a iniciativa de buscar parceiros e de entender as especificidades desses mercados e contextos sociais.
A educação é, sem dúvida, o pilar central para reverter esse quadro. Programas educacionais que incluam o ensino de história, geografia e cultura dos países da CPLP nas escolas, desde o ensino fundamental, são essenciais. Iniciativas como intercâmbios estudantis e professores, sem mencionar a promoção de eventos culturais que celebrem a diversidade da língua portuguesa, poderiam despertar o interesse e a consciência dos jovens brasileiros. A Amazônia, com sua posição geográfica e sua rica diversidade cultural, tem um papel único a desempenhar na promoção dessa integração.
A negligência com o conhecimento da Lusofonia também tem um impacto na diplomacia e nas relações comerciais. Um empresário do Pará (PA) que busca expandir seus negócios pode não considerar Angola como um mercado potencial devido à falta de informação sobre seu ambiente de negócios, sua cultura e suas necessidades. Da mesma forma, iniciativas de cooperação internacional em áreas como saúde, educação e infraestrutura que poderiam beneficiar comunidades ribeirinhas ou rurais na Amazônia podem ser subutilizadas por desconhecimento de programas existentes em países lusófonos.
O Barômetro da Lusofonia, portanto, não é apenas um indicador de conhecimento geográfico ou linguístico. É um retrato de uma visão limitada do mundo, que precisa ser urgentemente ampliada. Para a Amazônia, essa ampliação significa reconhecer a si mesma como parte de um espaço cultural e econômico mais vasto, com potenciais parceiros estratégicos e desafios comuns. A integração lusófona, quando compreendida e promovida ativamente, pode se tornar uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento sustentável e a valorização da identidade amazônica no cenário global.