Macapá (AP) – O programa Jovem Senador, uma iniciativa do Senado Federal que busca aproximar os estudantes da realidade política e legislativa do país, tem deixado marcas profundas no estado do Amapá. Ao longo de quase duas décadas de existência, o programa já viu centenas de jovens amapaenses vivenciarem de perto o funcionamento do Congresso Nacional, mas os bastidores dessa jornada, as estratégias de mobilização e os desafios enfrentados pelos coordenadores estaduais raramente vêm à tona. Em uma análise aprofundada, o Setentrional.com conversou com alguns desses articuladores para entender o que faz o Jovem Senador ser um sucesso, e quais os percalços para levar adiante essa experiência transformadora.
A seleção dos estudantes, que ocorre em parceria com as Secretarias Estaduais de Educação, é um dos pontos cruciais. A meta é clara: alcançar o maior número possível de escolas, especialmente as mais afastadas dos grandes centros urbanos. “É um trabalho de formiguinha”, confidenciou uma coordenadora que preferiu não se identificar, dada a delicadeza de algumas informações sobre a articulação política interna. “Precisamos convencer diretores, professores e, acima de tudo, os alunos, da importância de participar. Muitos ainda veem a política como algo distante, sujo. Nosso papel é desmistificar isso, mostrar que a participação cidadã é fundamental para a construção de um país melhor.”, explica.
Os desafios logísticos no Amapá são particularmente acentuados. A vasta extensão territorial, a infraestrutura precária em algumas regiões e a conectividade limitada dificultam a comunicação e a organização. “Não é como em outros estados. Aqui, muitas vezes, o deslocamento para uma escola em um município mais remoto pode levar dias. Precisamos planejar com muita antecedência, usar todos os meios de comunicação disponíveis, desde o rádio comunitário até grupos de WhatsApp, que nem sempre funcionam bem em todas as localidades”, relata outro coordenador, que atua na região do Vale do Jari.
A articulação com as autoridades locais, incluindo prefeituras e câmaras de vereadores, também é um componente essencial. Em muitos municípios, o sucesso do Jovem Senador depende do apoio dessas esferas de poder, que podem facilitar o acesso às escolas e até mesmo oferecer suporte para a divulgação do programa. “Temos que ter jogo de cintura. Saber quem são os aliados, quem pode nos ajudar a abrir portas. Não é uma tarefa simples, pois o cenário político em cada município tem suas particularidades. O que funciona em Macapá, por exemplo, pode não funcionar em Laranjal do Jari ou Porto Grande”, pontua um terceiro entrevistado, com vasta experiência no tema.
A experiência dos jovens selecionados é, sem dúvida, o ponto alto do programa. Eles viajam a Brasília, participam de simulações de sessões no Senado, conhecem de perto o trabalho dos parlamentares e, em muitos casos, voltam para suas comunidades com uma nova perspectiva sobre a política e a cidadania. “O impacto na vida desses jovens é imensurável. Eles se tornam multiplicadores de conhecimento, agentes de transformação em suas escolas e comunidades. Vemos alunos que antes eram apáticos se tornarem protagonistas, propondo projetos, cobrando seus representantes”, afirma um dos coordenadores mais antigos do programa no estado.
No entanto, a sustentabilidade do programa e a garantia de que a experiência se traduza em engajamento cívico a longo prazo ainda são pontos de reflexão. A transição desses jovens para a vida adulta e a manutenção do interesse pela política exigem um acompanhamento contínuo, algo que nem sempre é possível devido a limitações de recursos e estrutura. A equipe do Setentrional.com segue investigando as nuances deste importante programa e o papel fundamental dos coordenadores em sua execução no Amapá.