O aumento expressivo do número de eleitores quilombolas nas últimas eleições, que quase dobrou entre 2024 e 2026, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reflete uma crescente conscientização política e a busca por representatividade, especialmente em regiões como a Amazônia Legal. De 95.409 para 188.371 eleitores identificados como quilombolas em âmbito nacional, o crescimento é um indicativo claro da mobilização dessas comunidades tradicionais.
Na Amazônia, onde a demarcação de terras e a proteção ambiental são pautas centrais, o voto se torna uma ferramenta estratégica para a defesa de ideais e do modo de vida local. A expansão do eleitorado quilombola, que passou de 51.633 para 95.901 no Nordeste – região que concentra mais da metade desse eleitorado –, e também se reflete em outros estados da Amazônia Legal, como Pará (PA) e Maranhão (MA), que historicamente abrigam importantes comunidades quilombolas. O impacto direto para a população local reside na possibilidade de eleger representantes comprometidos com as suas causas, como a preservação de seus territórios, o acesso a direitos básicos e a valorização de sua cultura.
A universitária Franciele Silva, 27 anos, da comunidade Rio dos Macacos, em Simões Filho (BA), exemplifica essa nova geração de eleitores. Ela, que estuda Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA), utiliza seu conhecimento para orientar sua comunidade sobre a defesa de seus direitos e a importância do voto. “Até o ar que a gente respira tem a ver com política. Minha mãe sempre me ensinou a lutar pelos meus direitos e da minha comunidade”, afirma. Essa articulação entre conhecimento acadêmico e engajamento comunitário é crucial para fortalecer a voz quilombola nos espaços de decisão.
O agricultor Joaquim Moreira, 87 anos, da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO), e sua neta Thauany Silva, 16 anos, que votará pela primeira vez, representam a continuidade e a renovação desse engajamento. A ansiedade de Thauany em exercer seu direito de cidadã demonstra a importância atribuída ao voto como instrumento de cuidado com o futuro coletivo. “Quando a gente vota, estamos cuidando do futuro de todos nós, né?”, questiona a jovem estudante.
Bia Nunes, pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), corrobora a análise ao apontar que o crescimento do eleitorado está atrelado à ampliação da visibilidade e da conscientização política. “Nós temos levado as nossas pautas a diferentes espaços”, declara. Essa atuação em diversas frentes tem sido fundamental para que as demandas quilombolas ganhem destaque em debates nacionais e regionais, incluindo aqueles que afetam diretamente a Amazônia, como a mineração ilegal, o desmatamento e a regularização fundiária. A participação eleitoral se consolida, portanto, como um pilar para a garantia da sobrevivência e do desenvolvimento sustentável dessas comunidades.
O aumento de eleitores quilombolas em Goiás, de 3.625 para 5.394, embora menor em números absolutos comparado a outras regiões, sinaliza uma tendência de mobilização que se estende por todo o país. Na prática, isso se traduz em maior pressão política para que agendas específicas sejam consideradas. Na Amazônia, onde a disputa por território e recursos naturais é acirrada, a organização e a participação política dos quilombolas são essenciais para frear projetos predatórios e garantir a manutenção de seus modos de vida, impactando positivamente a preservação ambiental e a economia local sustentável.
