O Vietnã, segundo maior produtor mundial de café e principal fornecedor da variedade robusta, está traçando uma nova rota para suas exportações. O país asiático almeja transcender a posição de mero exportador de grãos verdes e aumentar significativamente a participação de produtos com maior valor agregado, como o café solúvel e torrado. Essa estratégia visa não apenas sustentar as receitas externas em um cenário de recuperação da oferta global e pressão sobre os preços, mas também aproveitar o crescimento do consumo na Ásia e fortalecer a competitividade no mercado europeu.
A mudança de foco é um movimento estratégico para a indústria cafeeira vietnamita. Dados recentes indicam que, atualmente, 91,7% do volume exportado pelo Vietnã ainda é composto por café verde. No entanto, quando se trata de receita, os produtos processados, como o café solúvel e torrado, já representam cerca de 17% do faturamento total das exportações de café, apesar de corresponderem a apenas 8,3% do volume total. Essa disparidade evidencia o imenso potencial de agregação de valor que o país busca explorar.
A indústria local tem direcionado investimentos robustos para o desenvolvimento e aprimoramento de produtos como café instantâneo, torrado e blends. A China emerge como um mercado estratégico crucial para essa expansão. O aumento expressivo no consumo de café, especialmente entre as gerações mais jovens, tem impulsionado a demanda por café torrado e solúvel no país. Algumas empresas vietnamitas já reportam contratos de exportação para o mercado chinês garantidos até o final do ano, com algumas operando no limite de sua capacidade produtiva para atender a essa demanda crescente.
Esse esforço para agregar valor ocorre em um contexto de aumento na disponibilidade de café. A Associação de Café e Cacau do Vietnã (Vicofa) estima que a produção vietnamita possa registrar um crescimento entre 8% e 10% neste ano. No primeiro semestre de 2024, o país exportou 1,05 milhão de toneladas de café, um aumento de 7,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Contudo, a receita de exportação sofreu uma retração de 13,8%, totalizando US$ 4,81 bilhões, reflexo da queda nos preços internacionais do grão.
A Vicofa atribui essa queda nos preços à recuperação da oferta global. Nos últimos anos, os preços elevados do café incentivaram produtores em diversas nações a investir em suas lavouras, resultando em um aumento geral na produção mundial. Essa maior oferta tende a pressionar as cotações para baixo, tornando a estratégia de agregar valor através do processamento ainda mais vital para a economia cafeeira vietnamita. A expectativa é que as exportações totais de café do Vietnã atinjam cerca de US$ 9 bilhões em 2026, aproximando-se do recorde de US$ 8,92 bilhões registrado em 2023.
No contexto amazônico, a busca por diversificação e agregação de valor na cadeia produtiva do café é uma estratégia que pode servir de inspiração. Estados como Rondônia (RO) e Pará (PA) são relevantes produtores de café, especialmente da variedade robusta, que é o carro-chefe do Vietnã. A valorização do grão através de processos como torrefação, moagem e desenvolvimento de cafés especiais ou solúveis pode representar um caminho para aumentar a rentabilidade dos produtores locais e fortalecer a economia da região, diversificando as exportações para além da commodity pura, tal qual o Vietnã busca fazer.
