O fenômeno climático El Niño já demonstra sua influência nas condições meteorológicas em diversas regiões do Brasil, com impactos mais severos observados até o momento no Rio Grande do Sul (RS). A afirmação é de Alexandre Nascimento, meteorologista da Nottus, que em entrevista recente detalhou os mecanismos por trás desses eventos extremos.
Segundo Nascimento, os temporais recentes que assolaram o estado gaúcho são manifestações características do El Niño. “A situação climática atual é resultado de um conjunto de fatores que atuam simultaneamente, criando condições propícias para eventos extremos”, explicou o especialista. Ele alertou que os efeitos do fenômeno não se restringem ao Sul, com potencial para se estender a outros estados da região Sul, além de São Paulo e Mato Grosso do Sul (MS).
Um dos fatores cruciais para a intensificação das chuvas é um bloqueio atmosférico. “Nós temos um sistema de alta pressão sobre grande parte do Brasil e esse sistema funciona como se fosse uma barreira, um bloqueio atmosférico que faz com que as frentes frias não consigam se deslocar”, detalhou Nascimento. Esse bloqueio impede o avanço normal das massas de ar, concentrando umidade e calor em determinadas áreas.
Diante dessa barreira, as regiões localizadas à frente da frente fria experimentam temperaturas significativamente acima do normal para a época. No Centro-Oeste, diversas cidades registraram máximas de 35°C, enquanto nos estados do Sul, as temperaturas se aproximaram dos 30°C, cerca de 10°C acima da média histórica recente. Esse calor intenso, combinado com a umidade vinda da região amazônica, cria um ambiente propício para a formação de nuvens de tempestade.
“O choque do calor com o frio forma nuvens ainda mais carregadas, que são abastecidas pelo ar quente e úmido que vem da Amazônia”, afirmou Nascimento. “Essa combinação de instabilidade frontal com a instabilidade termodinâmica resulta em volumes de chuva muito significativos.” Como exemplo prático, ele citou a região de Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Rio Grande do Sul, onde foram registrados 115 milímetros de chuva em um período de apenas 24 horas, um volume expressivo que pode causar alagamentos e deslizamentos.
A projeção meteorológica indica que a instabilidade climática avançará pelo país ao longo da semana. A frente fria, após atingir o RS, com previsão de chuva chegando a Porto Alegre no fim da tarde de domingo, deve progredir. Na terça-feira (21), espera-se que as instabilidades alcancem Santa Catarina (SC) e Paraná (PR). Na quarta-feira (22), o sistema chegará a São Paulo (SP) e Mato Grosso do Sul (MS).
Além do volume elevado de chuvas, o meteorologista alertou para o risco de tempestades com ventos fortes, cujas rajadas podem superar os 70 km/h e, em algumas áreas, atingir até 100 km/h. Esse cenário reforça a necessidade de atenção e de medidas preventivas em todo o Sul e Sudeste do país.
O mesmo bloqueio atmosférico que intensifica as chuvas no Sul também é responsável pelo calor atípico e pela baixa umidade observados em outras partes do Brasil. Em contraste com o Sul, regiões como o Sudeste, incluindo o estado de São Paulo, podem enfrentar períodos de estiagem e temperaturas elevadas, demonstrando a dualidade de efeitos do El Niño no território nacional. A Amazônia Legal, embora mais distante dos epicentros imediatos, pode ter sua dinâmica climática afetada pela alteração nos padrões de circulação atmosférica, que influencia o transporte de umidade para o sul do continente.
