Ação de retirada de famílias sem-terra de quatro fazendas em Machadinho do Oeste, Rondônia, resultou na morte de dois homens na última quinta-feira. As propriedades em questão pertencem ao grupo Nelore Di Genio, parte do espólio do empresário João Carlos Di Genio, fundador do grupo educacional Unip/Objetivo.
A Polícia Militar de Rondônia (PM) informou que os irmãos Alex Santos Santana e Alessandro Santos Santana foram mortos a tiros durante um patrulhamento em área já desocupada. Segundo a versão da PM, o confronto ocorreu após uma troca de tiros com agentes do Batalhão de Choque.
Contudo, fontes ligadas à Comissão Pastoral da Terra (CPT) contestam a versão policial. De acordo com a CPT, a PM teria perseguido os sem-terra mesmo após o início da desocupação das fazendas, em cumprimento à determinação judicial.
A PM alega que os policiais estavam patrulhando a área para prevenir novas ocupações. Durante o patrulhamento, os policiais avistaram um veículo em alta velocidade na Rodovia RO-133, ocupado pelos irmãos Santana. A polícia afirma que sinalizou para que o veículo parasse, mas o motorista não obedeceu e tentou fugir. Na perseguição, os ocupantes do carro, um Renault Clio, teriam atirado contra os policiais, que revidaram.
Os policiais relataram que o veículo tentou escapar, mas foi cercado. Ao tentar se esconder em uma área de mata, o carro atolou. Dois homens armados teriam saído do veículo e atirado novamente contra os policiais, configurando um segundo ato de agressão armada.
Os irmãos Santana foram encontrados caídos em um matagal, atingidos por disparos. Um deles foi baleado no peito, enquanto o outro apresentava um ferimento grave na perna. Ambos foram levados ao Hospital Municipal de Machadinho, mas não resistiram.
A polícia informou ter apreendido duas armas de fogo e munição que seriam dos irmãos. A Perícia Criminal foi acionada, mas não compareceu ao local devido à distância e ao histórico de conflitos na região.
O assessor agrário da CPT, afirma que a reintegração de posse das fazendas resultou em uma “caçada humana” contra os sem-terra, que foram obrigados a abandonar seus pertences. Segundo ele, as 440 famílias já haviam desocupado as fazendas pacificamente, mas muitas permanecem nas imediações, escondidas, sem ter para onde ir. Ele nega que os sem-terra planejassem reocupar a área.
Segundo a CPT, a desocupação das fazendas do Grupo Di Gênio ocorreu sem notificação prévia aos sem-terra e sem um Plano de Desocupação, conforme determina o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A ação teria envolvido dezenas de viaturas policiais, helicópteros e um carro blindado.
O assessor da CPT afirma que os irmãos Alex e Alessandro integravam o grupo de sem-terra que deixou a Fazenda Santa Maria e que as circunstâncias de suas mortes precisam ser esclarecidas. A CPT acionou órgãos como o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, a Ouvidoria Agrária Nacional e os Ministérios Públicos estadual e federal para que acompanhem a situação.
A PM de Rondônia sustenta que tem o dever legal de garantir a proteção dos oficiais de Justiça responsáveis pela reintegração de posse e reafirma que os irmãos Santana reagiram violentamente à abordagem policial.
Os advogados do Grupo Di Gênio informaram que as fazendas vêm sofrendo invasões desde o ano passado, o que motivou as ações judiciais para a reintegração de posse e a cobrança de providências contra os danos atribuídos aos sem-terra. Segundo os advogados, os sem-terra estariam desmatando a vegetação nativa, extraindo madeira ilegalmente, construindo barracos e loteando a propriedade.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
