A recente operação policial nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, contra o Comando Vermelho, expôs um dado alarmante: a alta letalidade entre jovens. A ação resultou na morte de 121 pessoas, incluindo dois policiais civis e dois militares. Entre as vítimas civis, ao menos dois adolescentes, de 14 e 17 anos, foram identificados. Além deles, pelo menos outros seis mortos tinham menos de 20 anos.
Uma lista divulgada pela Polícia Civil continha os nomes, fotos e idades dos civis mortos, inclusive dos adolescentes. A lista também incluía anotações criminais e postagens nas redes sociais, usadas pela polícia como indícios de ligação dos mortos com o tráfico de drogas.
O pai de um dos adolescentes, de 14 anos, morador de Nova Iguaçu, relatou que o filho havia saído para bailes nos complexos da Penha e do Alemão e desapareceu. O homem, que abandonou o emprego para procurar o filho, expressou o sofrimento da família, que além da mãe, é composta por mais três irmãos.
Segundo o pai, o garoto costumava frequentar os bailes com amigos, apesar da pouca idade. Ele mencionou ter conversado com o filho no dia da operação, cobrando seu retorno para casa, mas após a ação policial, o telefone do adolescente ficou inativo. Moradores da comunidade informaram ao pai que o jovem foi morto na mata, área de confronto com o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope).
O avô de outro jovem, de 17 anos, relatou ter criado o neto como filho, mas não conseguiu evitar o envolvimento do jovem com o crime. Ele expressou sua dor ao ver o corpo do neto enfileirado com outras vítimas e lamentou a perda do jovem para o crime. O avô revelou ter sofrido um ataque cardíaco devido aos problemas anteriores do neto e que, no dia da operação, o jovem havia prometido se cuidar.
Apesar de imprecisões identificadas na lista divulgada pela Polícia Civil, como o erro na data de nascimento de uma das vítimas, o documento revela que pelo menos um terço dos mortos tinha até 25 anos. Oito vítimas não haviam completado 20 anos e mais da metade tinha 30 anos ou menos.
Além das anotações criminais, a polícia incluiu na lista supostas provas da relação de alguns dos mortos com o tráfico de drogas, como a associação de um jovem à facção Comando Vermelho por ter postado figurinhas vermelhas em um perfil de rede social. A polícia também divulgou que os dois adolescentes assassinados foram flagrados nas redes sociais posando ao lado de fuzis.
O secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro minimizou o fato de alguns dos mortos não terem imagens em redes sociais portando armas nem anotações criminais, afirmando que, caso não tivessem reagido à abordagem policial, teriam sido presos em flagrante por diversos crimes.
Para Mônica Cunha, ativista dos direitos humanos e fundadora do Movimento Moleque, a alta letalidade entre jovens é resultado do racismo e da falta de investimentos públicos em áreas mais pobres, o que leva à marginalização e à busca por alternativas em organizações criminosas. Ela critica a militarização da segurança e a falta de oportunidades para jovens negros, considerando essa lógica como genocida. A ativista defende que a perda de vidas é inaceitável e que a sociedade perde a oportunidade de renovar seus quadros e solucionar seus próprios problemas.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
