O burburinho da Copa do Mundo, que este ano reverbera em terras distantes, nos faz pensar sobre as paixões que movem multidões. Mas, para além dos gramados e das celebrações globais, há um eco que ressoa de maneira particular em nossa Amazônia: o da vida, da ancestralidade e da cultura que pulsa em cada rio, em cada floresta.
Recentemente, um jogo entre França e Inglaterra, válido pela disputa de terceiro lugar na Copa do Mundo de 2026, chamou a atenção por sua intensidade e pelo placar elástico de 6 a 4. Dez gols que pintaram um quadro de emoção e que, de certa forma, nos convidam a refletir sobre a força dos números e dos feitos que marcam a história.
Essa partida igualou um feito histórico: a vitória da França sobre o Paraguai por 7 a 3, na Copa de 1958, na Suécia. E nos remete a outros confrontos memoráveis. A partida com mais gols, registrada em 1954, na Suíça, viu a Áustria vencer os anfitriões por 7 a 5, um espetáculo de 12 tentos. O Brasil, sempre presente em momentos de glória, também figura nessa lista. Em 1938, em solo francês, vencemos a Polônia por 6 a 5, em um jogo de 11 gols que demonstra a paixão brasileira pelo futebol.
Mas, enquanto o mundo celebra os gols em campos distantes, aqui na Amazônia, celebramos outras vitórias. A vitória da natureza em se manter viva, a resistência dos povos originários em preservar suas tradições e a riqueza cultural que se manifesta em cada canto. As comunidades ribeirinhas, os povos indígenas, todos eles guardam em si a memória de lutas e conquistas que, embora não estampem manchetes globais, são o verdadeiro coração de nossa terra.
A força de um gol pode ser efêmera, mas a força de uma comunidade, de uma cultura que se renova a cada amanhecer, essa é perene. Os 10 gols entre França e Inglaterra são um feito esportivo, um marco em uma competição. Mas, para nós, o verdadeiro espetáculo está na resiliência de uma comunidade que luta pela demarcação de suas terras, na sabedoria de um pajé que compartilha conhecimentos ancestrais, na arte que brota da alma amazônica e que ecoa histórias de um povo que é guardião de um dos biomas mais importantes do planeta.
A Copa do Mundo nos lembra da capacidade humana de superar limites, de buscar a excelência. E essa busca, de certa forma, se reflete na luta diária dos povos amazônicos. Eles buscam não por um troféu, mas pela dignidade, pelo respeito, pela preservação de seu modo de vida e de sua relação sagrada com a terra. Que a paixão pelo esporte nos inspire a olhar com mais atenção e carinho para as batalhas que acontecem em nossa própria casa, em nossa Amazônia, onde cada dia é uma vitória a ser celebrada.
