Em um momento de turbulência que sacode as estruturas do futebol mundial, a Uefa, a Concacaf e a AFC emitiram um comunicado conjunto, ecoando um sentimento que parece ganhar força nos bastidores: o futebol, em sua essência, não pertence a um único indivíduo. A declaração, direcionada ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, surge como um contraponto às recentes polêmicas que cercam a entidade máxima do esporte.
A carta, descrita como uma “missiva aberta à família do futebol”, traz palavras fortes que ressoam com a ideia de que a liderança no esporte deve ser pautada pelo serviço e não pela posse de poder. “A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter — ou exigir — o poder para si próprio”, afirmam as confederações em uníssono. A mensagem sugere que a confiança depositada em um líder pode ser quebrada quando este se coloca acima do coletivo, abandonando o dever que lhe foi confiado.
Este posicionamento das três confederações continentais adiciona uma camada de complexidade ao cenário da Fifa, que já vinha sendo abalada por revelações sobre projetos controversos e alegações de má conduta. A nota, no entanto, não conta com o apoio de outras importantes federações, como a CAF (África) e a Conmebol, cujas posições ainda não foram explicitamente declaradas neste contexto, embora a Fifa tenha destacado o apoio dessas entidades em comunicações anteriores.
A situação se desenrola enquanto Infantino se prepara para buscar a reeleição, dependendo da maioria dos votos dos 211 membros para garantir um novo mandato. As críticas e a divisão de opiniões entre as confederações podem indicar um cenário eleitoral mais acirrado do que o previsto. A Fifa, por sua vez, tem defendido seu presidente, denunciando o que chama de “esforço contínuo e orquestrado por parte de alguns para minar a entidade e seu presidente”.
Um dos focos recentes das críticas, conforme noticiado pelo jornal britânico Telegraph, envolve alegações de que Infantino, em seu período como secretário-geral da Uefa, teria utilizado sua influência para beneficiar uma funcionária com a qual mantinha uma relação íntima. A reportagem aponta para uma promoção e uma subsequente indenização de “seis dígitos”, além do custeio de um curso de MBA, levantando questões sobre transparência e ética na gestão esportiva.
A Uefa, ao ser contatada, admitiu a realização de um pagamento e o custeio de despesas educacionais, mas o contexto e os detalhes completos seguem sob escrutínio. Essas controvérsias se somam a um histórico de debates sobre a governança do futebol, incluindo a já abandonada proposta de abrir a Fifa para investidores privados, que gerou uma reunião de crise e pedidos de desculpas internas por falhas na comunicação e no processo decisório.
Enquanto as estruturas do poder no futebol global parecem se reconfigurar e as vozes de diferentes continentes se fazem ouvir, a mensagem de que o esporte transcende a vontade de um único líder ganha destaque. A reflexão sobre o que o futebol representa para as comunidades, para os atletas e para os torcedores — e quem realmente o comanda — torna-se cada vez mais urgente, especialmente em regiões como a Amazônia Legal, onde o esporte é um elemento vital de cultura e identidade, e onde a gestão global impacta diretamente as bases. A necessidade de uma governança transparente e que valorize as diversas realidades do esporte é um chamado que ecoa para além dos salões da Fifa.
