Nas profundezas da Amazônia, onde o verde pulsa e os rios contam histórias ancestrais, o futebol, um esporte que move multidões, ecoa de maneira diferente. Longe dos holofotes de grandes capitais e das discussões acaloradas sobre finanças globais, as comunidades ribeirinhas e indígenas acompanham o esporte com um olhar que transcende a simples competição. Elas veem no jogo um reflexo das dinâmicas sociais, da importância do coletivo e, por vezes, da exploração de recursos que afetam diretamente suas vidas.
Recentemente, o palco do futebol mundial foi sacudido por declarações que apontam para um descompasso entre a gestão do esporte e seus valores fundamentais. Richard Masters, CEO da Premier League, a liga de futebol mais poderosa do planeta, usou uma metáfora forte ao afirmar que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, teria apertado o “botão de autodestruição” com planos de abrir espaço para investidores privados na Copa do Mundo. Essa proposta, que enfrentou forte oposição e foi posteriormente abandonada, gerou um debate sobre a governança e a alma do futebol.
Enquanto o mundo do futebol discute os rumos comerciais de um evento que paralisa nações, é fundamental trazer à tona as perspectivas de quem vive em contato direto com a terra, cujos territórios e modos de vida são frequentemente impactados por decisões tomadas em cúpulas distantes. Na Amazônia, a Copa do Mundo é mais do que um torneio; é um evento que se entrelaça com as narrativas locais. Por exemplo, em cidades como Macapá (AP), onde o calor e a umidade moldam o cotidiano, a paixão pelo futebol se manifesta em campos de várzea e em rodas de conversa sob a sombra de mangueiras, onde as vitórias e derrotas dos times se misturam às preocupações com o futuro da floresta e a preservação das culturas que nela habitam.
A fala de Masters, embora focada no universo financeiro do futebol, ressoa de forma peculiar quando ecoa pelas comunidades amazônicas. A ideia de “autodestruição” pode ser facilmente transposta para os impactos ambientais causados pela exploração desenfreada de recursos naturais, uma realidade que as populações indígenas e ribeirinhas enfrentam diariamente. Assim como a FIFA precisou recuar diante da resistência à sua proposta, as comunidades amazônicas lutam incansavelmente contra projetos que ameaçam seus lares e sua subsistência.
A governança do futebol, criticada por Masters, que a descreve como uma “ferida autoinfligida” pela própria organização, pode ser vista em paralelo com as fragilidades na proteção ambiental. A falta de consulta às comunidades locais, a priorização de interesses econômicos em detrimento do bem-estar coletivo e a resistência a mudanças sustentáveis são paralelos dolorosos. A Federação Inglesa e a UEFA, ao se oporem ao plano da FIFA, demonstraram a importância da resistência e da defesa de princípios, algo que os povos originários da Amazônia praticam há séculos na defesa de seus territórios.
Olhar para o futebol através das lentes da Amazônia é reconhecer que o esporte, em sua essência, é sobre comunidade, paixão e superação. É sobre o coletivo que joga junto, a alegria que une torcedores e a resiliência para se levantar após cada derrota. Essas são lições que a floresta ensina diariamente. A FIFA, assim como qualquer organização com alcance global, tem a responsabilidade de zelar não apenas pelos interesses financeiros, mas também pela integridade e pelo legado de seu esporte, garantindo que suas decisões não causem um impacto destrutivo, seja no campo financeiro ou no ambiental, e que as vozes das comunidades, muitas vezes silenciadas, sejam ouvidas e respeitadas. O futuro do futebol, assim como o futuro da Amazônia, depende de um olhar mais consciente e um compromisso genuíno com um desenvolvimento sustentável e inclusivo.
