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Ubarana: Peixe Antes Ignorado Impulsiona Renda de Mulheres na Amazônia

Macapá (AP) – Na vasta e biodiversa Amazônia Legal, onde a pesca é fonte de sustento para inúmeras comunidades ribeirinhas, um peixe outrora desprezado tem se tornado protagonista na geração de renda para mulheres. A ubarana, espécie comum em rios e igarapés da região, que raramente encontrava valor comercial nas feiras e mesas tradicionais, agora é transformada em pratos criativos e lucrativos, impulsionando a economia local e promovendo a autonomia feminina.

A iniciativa, que ecoa experiências bem-sucedidas em outras regiões do Brasil, como a Baixada Fluminense (RJ), onde a ubarana também ganhou destaque culinário, ganha contornos particulares no contexto amazônico. Em comunidades como as do entorno do Rio Suruí, por exemplo, a ubarana já era consumida de forma artesanal, beneficiada pelas mulheres com saberes passados de geração em geração. Essa tradição está sendo resgatada e aprimorada, agregando valor a um recurso que antes era subutilizado.

A transformação da ubarana em iguarias como moquecas, ensopados, patês e até mesmo em salgados para eventos, demonstra o potencial gastronômico e econômico do pescado. A criação de pratos inovadores não apenas atrai novos consumidores, mas também valoriza a cultura local e os conhecimentos ancestrais das mulheres pescadoras. Em muitas comunidades, a venda desses produtos tem sido fundamental para complementar a renda familiar, especialmente em períodos de menor captura de outras espécies.

Márcia Regina, pescadora aposentada e atuante em uma associação de mulheres na Baixada Fluminense, relata como a ubarana mudou a realidade de sua comunidade. “São pratos feitos com ubarana e assim temos ajudado famílias. As mulheres, às vezes com depressão, vão para a cozinha e acabam ficando boas. Porque, juntas, a gente começa a conversar, contar casos, histórias e problemas nossos. Uma ajudando a outra. Acaba sendo uma ação social dentro da Cozinha. Tem sido muito bom e ainda gera renda”, conta. Essa dinâmica social e terapêutica é um benefício adicional, comum em iniciativas de empoderamento feminino na Amazônia, onde o trabalho coletivo fortalece os laços comunitários.

O sucesso da ubarana como fonte de renda está diretamente ligado à capacidade das mulheres de se organizarem em associações e cooperativas. Esses grupos permitem não apenas o compartilhamento de técnicas e a compra conjunta de insumos, mas também a busca por apoio de órgãos governamentais e não governamentais. Editais de fomento à pesca artesanal, à bioeconomia e ao empreendedorismo feminino, como os promovidos pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), têm sido cruciais para a estruturação dessas iniciativas, garantindo espaços físicos adequados para o preparo dos alimentos e a aquisição de equipamentos.

A valorização da ubarana também contribui para a sustentabilidade da pesca na região. Ao focar em uma espécie que, historicamente, não era alvo de pesca predatória ou de grande volume comercial, as comunidades evitam a sobre-exploração de outros peixes mais cobiçados. Isso se alinha com os esforços de conservação da biodiversidade amazônica, incentivando práticas de manejo responsável dos recursos naturais. A pesca da ubarana, quando realizada de forma artesanal e com respeito aos ciclos naturais, torna-se um exemplo de como a economia local pode prosperar em harmonia com o meio ambiente.

A expansão dessa prática para outras regiões da Amazônia Legal, como o Pará (PA), Amazonas (AM) e Rondônia (RO), é uma possibilidade real. O modelo de negócio, baseado na criatividade culinária, no conhecimento tradicional e na organização comunitária, pode ser replicado, adaptando-se às particularidades de cada ecossistema e cultura local. A ubarana, antes esquecida nas redes dos pescadores, surge como um símbolo de resiliência e inovação, mostrando que o futuro da economia amazônica pode estar em valorizar aquilo que já se tem, transformando desafios em oportunidades e impulsionando o desenvolvimento com protagonismo feminino.

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