Um projeto pioneiro está em curso na vasta região da Amazônia Legal, abrangendo seus nove estados, com o objetivo de identificar e mapear as oportunidades econômicas, os setores produtivos, as capacidades e as competências que podem impulsionar a transição da área para uma economia de baixo carbono. A iniciativa, denominada “Futuros Verdes na Amazônia”, é uma colaboração entre o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR).
A proposta fundamental é promover um diálogo aprofundado com especialistas e representantes do setor produtivo. O intuito é transformar o conhecimento existente sobre sustentabilidade em orientações estratégicas concretas, que levem em consideração a imensa diversidade territorial e cultural da Amazônia. Paralelamente, o mapeamento busca identificar as necessidades de formação e capacitação de profissionais, preparando a força de trabalho local para as novas exigências impostas pelas mudanças climáticas globais e pela necessária transformação dos modelos produtivos tradicionais.
Segundo Diogo Araújo, biólogo, analista do CESAR e um dos coordenadores do projeto, a transição para uma economia de baixo carbono não é um processo que ocorre de maneira espontânea ou automática. “As oportunidades não se distribuem automaticamente e também não vai ter uma transformação de forma tão natural e tão automática. Então é por isso que o Futuros Verdes na Amazônia nasce. Para compreender essa complexidade”, explica Araújo.
A região amazônica, embora enfrente desafios significativos decorrentes das mudanças climáticas, como o aumento da frequência de eventos extremos e a pressão sobre seus ecossistemas, também detém um conjunto notável de potencialidades para o desenvolvimento de alternativas produtivas mais sustentáveis. A preservação da biodiversidade, o uso sustentável dos recursos naturais e o desenvolvimento de cadeias produtivas com baixo impacto ambiental são exemplos dessas potencialidades.
O contexto amazônico apresenta desafios únicos. A vasta extensão territorial, a diversidade de ecossistemas e a presença de comunidades tradicionais e indígenas exigem abordagens específicas e contextualizadas. A dependência econômica de alguns setores, como a pecuária e a exploração madeireira em algumas áreas, contrasta com o potencial de desenvolvimento da bioeconomia, do turismo sustentável e das energias renováveis.
Enquanto o Nordeste, por exemplo, tem se destacado na geração de energia eólica e solar, a Amazônia possui um potencial imenso em outras áreas. A bioeconomia, que valoriza a biodiversidade amazônica para a criação de novos produtos e processos, é um campo promissor. A produção sustentável de açaí, castanha, óleos vegetais e outros produtos da floresta em pé pode gerar renda para as comunidades locais e contribuir para a conservação ambiental. Além disso, o potencial para o desenvolvimento de tecnologias limpas e a biofabricação na região é expressivo.
Para Mário Cardoso, gerente de Recursos Naturais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as oportunidades na Amazônia podem ser ainda mais amplas. “Você tem potencialidade na bioeconomia, na biodiversidade da Amazônia, na questão de biomassa e energia renovável, tanto com biocombustíveis quanto energia solar e hidrelétrica de baixo impacto. Tudo isso você tem potencialidade”, afirma Cardoso.
Contudo, o desafio reside em como transformar essa vasta potencialidade em desenvolvimento econômico e social efetivo para a região. “Agora, como transformar essa potencialidade em desenvolvimento?”, questiona Cardoso. Para o especialista, a resposta é complexa e envolve a articulação de diversos fatores, incluindo o fortalecimento das cadeias de produção locais, a identificação de demandas do setor produtivo por produtos e serviços sustentáveis, a exploração do potencial de mercado para a bioeconomia e produtos da sociobiodiversidade, a garantia da viabilidade técnica dos projetos e a capacidade de implementação em larga escala, considerando as especificidades amazônicas.
A iniciativa “Futuros Verdes na Amazônia” busca justamente preencher essa lacuna, oferecendo um roteiro estratégico para que os estados amazônicos possam navegar a transição energética e econômica, aproveitando suas riquezas naturais de forma sustentável e gerando prosperidade para suas populações.
