A disputa pela Presidência da República em 2026 se desenha com um foco acentuado na desqualificação de adversários políticos, em detrimento da apresentação de propostas concretas para o país. Essa é a avaliação de Murillo de Aragão, cientista político e CEO da Arko Advice, que aponta para um cenário eleitoral onde o embate pessoal prevalecerá sobre o debate de ideias.
Em análise sobre o panorama político brasileiro, Aragão destaca que os programas de governo, historicamente, possuem pouca relevância prática nas campanhas. Ele ilustra seu ponto de vista com um episódio da década de 1980, envolvendo Tancredo Neves. Na ocasião, um programa elaborado pela esquerda foi apresentado ao então candidato, que, após uma rápida análise, teria considerado o material mais como uma formalidade do que como um guia estratégico para a eleição. Essa percepção, segundo o especialista, reflete uma dinâmica persistente na política nacional.
A eleição de 2026, segundo a Arko Advice, tende a ser definida pela chamada “eleição de rejeição”. Isso significa que o eleitorado será mais movido pela antipatia em relação a um candidato do que pela afinidade com outro. “Essa eleição tende a ser uma eleição de destruição do adversário, não de construção do futuro”, afirma Aragão, ressaltando que essa é uma “grande problema no Brasil”.
O interesse real dos candidatos, na visão do cientista político, reside mais em vencer a disputa a qualquer custo do que em qualificar o debate público. O caminho escolhido para atingir esse objetivo é o ataque direto ao oponente. Como reflexo dessa pobreza do momento político, Aragão cita a recusa de figuras proeminentes, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em participar de debates televisionados, como o da Bandeirantes. Essa postura sinaliza uma tendência de fuga do confronto direto de ideias e propostas.
“Eu não vejo o debate se qualificando”, conclui Aragão. A campanha presidencial de 2026, portanto, deve seguir um padrão de confronto pessoal, com um esvaziamento programático. Essa dinâmica é um reflexo de uma disputa eleitoral onde a rejeição ao adversário se consolida como o principal instrumento de campanha. No contexto da Amazônia Legal, essa polarização pode ter impactos significativos, distanciando ainda mais o eleitorado das discussões sobre as particularidades regionais, como o desenvolvimento sustentável, a proteção ambiental e as demandas sociais específicas dos estados como Pará (PA), Amazonas (AM) e Amapá (AP).
A falta de foco em propostas concretas pode prejudicar a discussão de temas cruciais para a região amazônica, como a implementação de políticas de bioeconomia, a fiscalização de atividades ilegais que afetam a floresta, como o garimpo e o desmatamento, e a melhoria da infraestrutura logística para escoamento da produção local. Eleitores em cidades como Macapá (AP) e Manaus (AM) podem se ver distantes das discussões centrais, que se concentram em ataques pessoais, sem abordar as necessidades específicas de suas comunidades.
A polarização exacerbada e a ausência de debates programáticos aprofundados podem levar a um distanciamento ainda maior da política por parte da população, especialmente em regiões mais remotas da Amazônia Legal, onde o acesso à informação de qualidade já é um desafio. A desqualificação do adversário, embora seja uma tática eleitoral, enfraquece o processo democrático e a capacidade de construir consensos em torno de agendas importantes para o futuro do país e, em particular, para a preservação e o desenvolvimento sustentável da maior floresta tropical do mundo.
