A atmosfera do futebol mundial, que deveria estar vibrando com a expectativa da próxima Copa do Mundo, foi subitamente tomada por um debate sobre sua própria alma. No centro dessa tempestade, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) emitiu um comunicado que ecoa um descontentamento profundo, não apenas com as decisões recentes da Federação Internacional de Futebol (Fifa), mas com um método que, segundo ela, desrespeita os pilares da governança esportiva. A entidade, que representa o futebol de nações como o Brasil, a Argentina e o Uruguai, expressou sua ‘preocupação com as ações unilaterais’ da Fifa, um prenúncio de tensões que podem moldar o futuro do esporte mais popular do planeta.
A gota d’água para a Conmebol parece ter sido a proposta, agora retirada, de permitir investimentos privados em suas competições. Embora a retirada da proposta tenha sido vista com alívio, a forma como ela foi conduzida gerou inquietação. A Conmebol, em um tom que beira a repreensão, questionou a condução do projeto Fifa Forward Enterprise (FFE), sem, contudo, nomear diretamente o presidente da Fifa, Gianni Infantino. A mensagem, porém, é clara: a confederação sul-americana clama por diálogo e respeito aos mecanismos institucionais.
Em suas palavras, a Conmebol manifestou, ‘de maneira unânime, sua preocupação com as reiteradas ações unilaterais adotadas sem recorrer ao diálogo, nem aos mecanismos institucionais estabelecidos para tratar este tipo de situações’. Essa declaração, vinda de uma das mais tradicionais e influentes confederações do futebol mundial, carrega um peso significativo. O Paraguai, sede da Conmebol, observa atentamente os movimentos em Zurique, sede da Fifa, e a liderança do paraguaio Alejandro Domínguez busca reafirmar a importância da colaboração e da transparência.
A crítica da Conmebol vai além da mera discordância tática. Ela aponta para um impacto negativo na imagem da própria Fifa e do futebol como um todo. ‘Em questão de dias, o futebol passou de ocupar o centro das atenções devido à realização de um evento esportivo extraordinário (a Copa do Mundo de 2026) ao debate público de questões relacionadas à sua governança’, lamentou a nota. Essa transição abrupta para um debate sobre a gestão do esporte sugere uma crise de confiança que precisa ser urgentemente endereçada. As comunidades que vivem e respiram futebol, desde as praças de Macapá (AP) até os campos de terra do interior do Peru, merecem um esporte gerido com integridade e visão de longo prazo.
A Conmebol, que já demonstrou seu apoio à reeleição de Infantino e à expansão da Copa do Mundo de 2030, agora se vê em uma posição delicada. Ao mesmo tempo em que busca fortalecer sua influência e seus projetos, como a ampliação do torneio para 64 seleções, a entidade se vê obrigada a defender princípios fundamentais. O ‘marco institucional constitui uma garantia para todos’, enfatiza a nota, pedindo que a prioridade seja ‘o diálogo, o respeito às regras e o intercâmbio construtivo’. A mensagem final é um apelo à união e à responsabilidade coletiva: ‘Quando esses princípios são deixados de lado, o futebol perde e todos nós perdemos. O futebol é de todos’.
A reação da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA), que mantém seu boicote às competições da Fifa, demonstra a amplitude da oposição a Infantino e à sua proposta de capital privado. A Conmebol, ao se manifestar, não apenas defende seus interesses, mas também se alinha a uma corrente de pensamento que preza pela preservação da essência do esporte, longe dos interesses puramente mercadológicos. O jogo, agora, não é apenas dentro das quatro linhas, mas nas salas de reunião onde o futuro do futebol está sendo decidido, e onde vozes como a da Conmebol buscam garantir que a paixão de milhões prevaleça sobre interesses de poucos.
