A data de 9 de Julho é marcada como feriado no estado de São Paulo, celebrando a Revolução Constitucionalista de 1932. Este evento histórico representou um movimento militar organizado pelo estado paulista contra o governo federal, então sob a primeira fase da gestão de Getúlio Vargas.
Para os historiadores, a consolidação desta data como um marco cívico está ligada ao rápido desenvolvimento e às transformações na identidade de São Paulo, especialmente de sua capital, que passou por significativas reorganizações nas décadas subsequentes.
Embora celebrada como um evento cívico importante, a Revolução de 1932 não foi o primeiro levante militar no estado, nem a primeira vez que elites paulistas mobilizaram-se contra um governo considerado impopular.
A mobilização de 1932 ocorreu em um contexto de crise global. A quebra da Bolsa de Nova York em 1929 intensificou os impactos sobre a produção de café no estado, que na época era o principal produto de exportação paulista. Essa crise econômica foi um fator decisivo para o sucesso do levante militar que culminou na deposição do presidente Washington Luís.
Naquele período, a política brasileira era marcada pela alternância de poder entre as elites de São Paulo e Minas Gerais, conhecida como a Política do Café com Leite. A deposição de Washington Luís, antes da posse de Júlio Prestes — eleito com o apoio das elites paulista e mineira — e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, representaram uma ruptura significativa nesse arranjo.
Uma junta militar tomou a então capital federal e instalou Getúlio Vargas, gaúcho, na presidência. “A deposição do presidente Washington Luís e o fim da Política do Café com Leite, em 1930, proporcionaram, em alguma medida, o isolamento das elites agrárias e industriais paulistas do poder central. Com o intuito de mobilizar a população para uma guerra civil contra o governo provisório de Vargas”, explica o professor Arão Davi Oliveira, da Universidade Anhanguera (Uniderp).
O professor acrescenta que “essas elites passaram a construir uma narrativa ufanista e unificadora que aglutinou um discurso legalista e o mito da liderança paulista. O discurso legalista ‘vestiu a roupa’ da defesa da Constituição e colocou São Paulo no papel de guardião altruístas da legalidade contra o arbítrio varguista”. Essa construção narrativa buscava legitimar o movimento e angariar apoio popular e político.
Como parte de seu projeto de centralização de poder, Getúlio Vargas nomeou interventores para administrar os estados, substituindo os governadores eleitos. Em São Paulo, a nomeação de João Alberto Lins de Barros, um militar pernambucano com histórico em movimentos como a Revolta Paulista de 1924 e a Coluna Prestes, gerou forte oposição entre os políticos locais. Sua proximidade com Vargas e seu passado em movimentos de contestação não foram bem recebidos pelas elites paulistas.
A resistência ao interventor não se limitou aos políticos. Intelectuais, a imprensa local e partidos tradicionais, como o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD), organizaram campanhas contra as medidas de Vargas, temendo uma modernização que pudesse desestabilizar a ordem vigente. A crescente tensão levou à substituição de João Alberto. Em março de 1932, Pedro de Toledo, um civil, foi nomeado interventor, em uma tentativa de conciliação.
No entanto, a nomeação de Pedro de Toledo não aplacou os ânimos. As elites paulistas, sentindo-se marginalizadas do poder federal e insatisfeitas com a intervenção de Vargas, passaram a articular um movimento de maior escala. A insatisfação geral com o governo provisório e a percepção de que a Constituição de 1891 havia sido desrespeitada foram catalisadores para a eclosão da Revolução Constitucionalista.
O movimento eclodiu em 9 de Julho de 1932, com o objetivo de forçar a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte e a elaboração de uma nova Constituição para o Brasil. São Paulo mobilizou suas forças militares e civis, dando início a um conflito que durou meses e mobilizou milhares de pessoas. Embora a revolução tenha sido militarmente derrotada em outubro do mesmo ano, ela deixou um legado político e cultural significativo.
A Revolução de 1932 é lembrada como um momento de forte identidade paulista e de luta por ideais democráticos e constitucionais. A posterior instituição do feriado em 9 de Julho, décadas depois, em 1997, oficializou a data como um símbolo da resistência e da busca por um ordenamento jurídico mais justo e representativo, ecoando em um estado que continua a ser um polo de desenvolvimento e influência no cenário nacional, com reflexos em toda a Amazônia Legal e no Brasil.
