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Mulheres Ribeirinhas de Melgaço (PA) Impulsionam Merenda Escolar

Da Redação

A revolução na alimentação escolar chegou às comunidades ribeirinhas de Melgaço (PA), município integrante do arquipélago do Marajó. Um grupo de dez jovens mulheres, com idades entre 20 e 30 anos, mães de alunos da rede pública local, está à frente de uma iniciativa que promete transformar a merenda das escolas municipais. Com o apoio fundamental da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater) – por meio de seu escritório em Melgaço (PA) – e da prefeitura local, essas produtoras rurais se preparam para abastecer as cozinhas escolares ainda neste semestre, fortalecendo a economia local e garantindo alimentos frescos e nutritivos.

Os itens que comporão a merenda são um verdadeiro reflexo da riqueza amazônica e da cultura alimentar da região. Entre os produtos negociados estão camarão regional cozido e descascado, bolo de macaxeira, biscoito de castanha-do-pará e polpa de cupuaçu, todos provenientes diretamente das comunidades de Ilha da Terra, São Benedito e Santa Rosa. Essa diversidade não apenas enriquece o cardápio dos estudantes, mas também valoriza a produção local e o conhecimento tradicional dos povos da floresta.

O impacto financeiro desta ação é substancial para as famílias envolvidas. Estima-se que cada agricultora possa receber até R$ 40 mil pelo fornecimento de alimentos ao longo do ano letivo. A equipe da Emater, com base em projeções de custo médio de produção, calcula que o lucro para essas mulheres pode alcançar até 50%. A mobilização para a inclusão no Programa Nacional da Alimentação Escolar (Pnae) foi intensificada nesta semana, com a parceria da Secretaria Municipal de Educação (Semed). As famílias beneficiadas receberam da Emater os Cadastros Nacionais da Agricultura Familiar (CAFs), documento essencial para o acesso a essa política pública que fomenta a aquisição de produtos diretamente de pequenos produtores.

Raiane Machado, de 29 anos, membro ativo do coletivo Filhas da Floresta, constituído em 2024 na comunidade São Benedito, às margens do rio Anapu (PA), expressa o entusiasmo com a iniciativa. “Nós somos mulheres que já possuímos renda própria, com a ideia de economia popular solidária. Quando vendemos para a merenda escolar, o preço é justo, evitamos desperdício e perda de mercadoria, e partilhamos de um alimento saudável, de qualidade, do nosso costume, para os nossos filhos”, pontua Raiane, ressaltando o impacto positivo na socioeconomia e o fortalecimento da causa feminista campesina.

A história de Raiane é um exemplo da resiliência e do empreendedorismo local. Em seu Sítio São Raimundo, ela e seu marido, Odemir Cordovil, de 39 anos, dedicam-se à criação de galinha-caipira, ao cultivo de hortaliças orgânicas e à produção artesanal de farinha d’água e tapioca. O casal é pai de três filhos – Rauan, de três anos; Raiana, de 11 anos; e Benedito, de 13 anos – que representam a nova geração que se beneficiará diretamente dessa conexão entre a produção local e a educação.

José Nilton Silva, engenheiro agrônomo, especialista em Agronegócio e Biocombustíveis, e chefe do escritório local da Emater em Melgaço (PA), destaca a relevância da dimensão de gênero no trabalho da instituição. “As mulheres desta região se organizaram em grupos, o que é um diferencial e uma excelente estratégia para as políticas públicas. No mais, quando reconhecemos as mulheres rurais como titulares de direitos, sem dependência de seus maridos, companheiros, e quando documentamos e capacitamos essas mulheres, protagonistas nos arranjos familiares e na sociedade, é um resultado de cidadania, dignidade e representação inclusive para as futuras gerações”, reflete Silva, enfatizando o papel transformador da Emater na vida das comunidades.

Fortalecendo a Economia Local e a Soberania Alimentar

A iniciativa em Melgaço (PA) transcende a simples logística de abastecimento, configurando-se como um modelo replicável e inspirador para outros estados da Amazônia Legal. Ao priorizar a aquisição de alimentos da agricultura familiar para a merenda escolar, o programa não apenas garante refeições mais nutritivas e culturalmente relevantes para os estudantes, mas também impulsiona a economia circular nas comunidades. O dinheiro investido na compra dos produtos permanece na localidade, gerando renda e fortalecendo o poder de compra das famílias produtoras, contribuindo para a redução da desigualdade social e econômica na região.

Além do benefício econômico, há um ganho imensurável em termos de soberania e segurança alimentar. A valorização de alimentos regionais e, muitas vezes, orgânicos, cultivados sem agrotóxicos e respeitando os ciclos naturais do bioma amazônico, assegura uma alimentação mais saudável e livre de contaminantes. Esse movimento contrasta com o modelo de abastecimento tradicional, que muitas vezes depende de produtos de outras regiões, com longas cadeias de transporte e menor frescor, representando um avanço significativo para a saúde pública e a sustentabilidade ambiental na Amazônia.

O Papel Estratégico da Emater na Amazônia Legal

A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater) desempenha um papel crucial no desenvolvimento rural, especialmente em regiões desafiadoras como o Marajó. Sua atuação vai muito além da simples orientação técnica agrícola; ela atua como uma ponte entre as políticas públicas e os produtores, facilitando o acesso a programas essenciais como o Pnae e o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). Ao empoderar mulheres e coletivos, a Emater não apenas promove a produção sustentável, mas também fomenta a organização comunitária e a participação cidadã, essenciais para o progresso socioeconômico da Amazônia Legal.

A expertise da Emater na Amazônia é fundamental para superar os desafios logísticos e culturais. Em um contexto onde o acesso a mercados é frequentemente limitado e as condições de produção são peculiares, a assistência técnica e a extensão rural adaptadas às realidades locais são indispensáveis. A capacitação em boas práticas agrícolas, a orientação na gestão de cooperativas e associações, e o suporte na comercialização são pilares que sustentam a resiliência e a inovação dos agricultores familiares, garantindo que suas colheitas cheguem às mesas de quem mais precisa, como os alunos das escolas públicas.

5 Dicas para Impulsionar a Agricultura Familiar na Merenda Escolar na Amazônia

A experiência de Melgaço (PA) pode ser um catalisador para outras regiões. Aqui estão cinco dicas para fortalecer a agricultura familiar e sua integração com a merenda escolar, especialmente no contexto da Amazônia Legal:

<b>1. Investimento em Capacitação e Boas Práticas Agrícolas:</b> Oferecer treinamentos contínuos sobre técnicas de cultivo sustentável, manejo de pragas, certificação orgânica e processamento de alimentos. A Emater e outras instituições podem liderar esses programas, adaptando-os às especificidades de cada bioma e cultura local. Isso garante produtos de maior qualidade e segurança alimentar.

<b>2. Fortalecimento de Redes e Cooperativas:</b> Incentivar a formação de associações e cooperativas entre os agricultores familiares. A organização coletiva facilita a negociação com as prefeituras, otimiza a logística de entrega, aumenta o poder de compra de insumos e permite o acesso a mercados maiores. A experiência do coletivo Filhas da Floresta em Melgaço (PA) é um exemplo inspirador dessa sinergia.

<b>3. Desburocratização no Acesso a Programas:</b> Simplificar os processos para que os agricultores familiares, especialmente os mais vulneráveis e em áreas remotas, possam acessar programas como o Pnae e obter documentos como o CAF. Parcerias entre órgãos governamentais (federal, estadual e municipal) e entidades de assistência técnica são essenciais para reduzir barreiras e agilizar o cadastro.

<b>4. Incentivo à Produção de Alimentos Regionais e Orgânicos:</b> Promover o cultivo de espécies nativas e adaptadas ao clima amazônico, bem como o uso de práticas orgânicas. Além de valorizar a cultura alimentar local, essa abordagem contribui para a conservação da biodiversidade e a resiliência dos ecossistemas. Educar tanto produtores quanto consumidores sobre os benefícios desses alimentos é crucial.

<b>5. Criação de Canais de Comercialização Direta e Logística Adaptada:</b> Desenvolver mecanismos que facilitem a venda direta dos agricultores para as escolas, minimizando intermediários e custos. Para a Amazônia, isso pode incluir o apoio a transportes fluviais, a criação de pequenos centros de distribuição regionais e o uso de tecnologias para conectar oferta e demanda, superando os desafios geográficos.

A jornada das mulheres ribeirinhas de Melgaço (PA) é um testemunho do potencial transformador da agricultura familiar quando aliada a políticas públicas eficazes e ao empoderamento comunitário. Este projeto não é apenas sobre alimento; é sobre dignidade, autonomia e a construção de um futuro mais próspero e sustentável para a Amazônia e seus povos.

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Fonte: https://noticiamarajo.com.br

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